Rogério Charraz é um cantautor português cuja obra cruza música, literatura e narrativa. Com um percurso iniciado na década de 1990, construiu uma linguagem própria dentro da canção de autor portuguesa, criando discos e espetáculos habitados por personagens, histórias e retratos da sociedade contemporânea.
Nas suas canções, a observação do quotidiano encontra-se com temas como a memória, o território, a liberdade, o amor, a identidade e as transformações sociais. Mais do que interpretar canções, Rogério Charraz procura contar histórias e estabelecer, através delas, uma relação próxima com o público.
O início do percurso musical
Nascido em Lisboa, em 1978, Rogério Charraz cresceu em Sintra, onde iniciou o seu percurso musical ainda durante a adolescência. Em 1994 fundou, com Rogério Oliveira, a banda União de Loucos, que mais tarde adotaria o nome Boémia.
Com este projeto editou os álbuns Madrigal, em 1999, e Semente, em 2003. Este último contou com as participações de Luís Represas, Luís Pastor e Fausto Bordalo Dias.
Foi durante esta primeira etapa que começou a definir uma identidade musical ligada à tradição da canção portuguesa, mas aberta às influências da folk, do rock, da música popular, da canção urbana e de diferentes sonoridades do universo lusófono.
Em 2007 iniciou uma nova fase do seu percurso com a criação do Rogério Charraz Trio. O projeto partia da interpretação de repertório português, brasileiro e africano, ao mesmo tempo que lhe permitia desenvolver e apresentar um conjunto cada vez mais significativo de composições originais.
A carreira a solo
A estreia discográfica em nome próprio aconteceu com A Chave, álbum que afirmou Rogério Charraz como autor, compositor e intérprete. O trabalho reuniu onze canções originais e contou com participações de Rui Veloso, José Mário Branco, Ana Laíns e Fernando Tordo.
Distinguido como Disco Antena 1, A Chave levou também várias das suas composições à televisão, através da inclusão de temas em bandas sonoras de séries e telenovelas portuguesas.
Em 2014 editou Espelho, um disco marcado pela diversidade musical e pelo cruzamento entre a canção portuguesa, a folk, o rock, a morna e o reggae. O álbum contou com convidados como Rui Pregal da Cunha, Dany Silva, Luanda Cozetti e Sensi, tendo sido novamente distinguido como Disco Antena 1.
Dois anos depois, apresentou Não Tenhas Medo do Escuro, um trabalho de natureza mais acústica e orgânica, ligado às raízes da música portuguesa. O álbum aprofundou a colaboração com o jornalista e escritor José Fialho Gouveia, responsável por parte significativa das letras, e incluiu também textos da escritora Filipa Martins.
Neste disco, Rogério Charraz reuniu diferentes universos musicais através das participações de Kátia Guerreiro, Marta Pereira da Costa, Júlio Resende, António Caixeiro, Buba Espinho e Eduardo Espinho. A produção ficou a cargo do próprio Rogério Charraz e do acordeonista Carlos Lopes.
Em 2018, o seu percurso foi celebrado com 4.0, um espetáculo e disco gravado ao vivo no Cinema São Jorge, em Lisboa. Concebido como uma viagem pelo passado, presente e futuro da sua carreira, o trabalho recuperou temas dos três álbuns anteriores e apresentou novas canções.
O registo contou com as participações de Júlio Resende, Jorge Benvinda, António Caixeiro e Ricardo Ribeiro, dando posteriormente origem à digressão Km 4.0, apresentada em teatros e auditórios de várias regiões do país.
Paralelamente ao seu percurso discográfico, Rogério Charraz tem colaborado com artistas de diferentes gerações e universos musicais. É autor de Encontro, tema gravado pela guitarrista Marta Pereira da Costa com a participação do músico camaronês Richard Bona.
O Coreto
Em 2021, Rogério Charraz apresentou O Coreto, um dos projetos centrais do seu percurso artístico. Com músicas de Rogério Charraz, letras de José Fialho Gouveia e produção musical de Luísa Sobral, o disco utiliza o coreto como símbolo das pequenas comunidades e como lugar de encontro, memória e identidade.
Construído como uma narrativa musical, O Coreto acompanha Sebastião, que abandona a vida na cidade e regressa à aldeia do pai, onde conhece Ana. A história de amor entre as duas personagens serve de fio condutor para um retrato mais amplo das assimetrias entre os grandes centros urbanos e o interior do país, da desertificação, das migrações e dos dilemas de quem parte e de quem permanece.
Musicalmente, o disco cruza a canção de autor com diferentes elementos da tradição portuguesa, do cante alentejano ao vira minhoto, sem abandonar sonoridades e arranjos contemporâneos.
Transposto para palco com uma formação alargada, O Coreto vai além do formato tradicional de concerto. José Fialho Gouveia assume o papel de narrador, conduzindo o público através da história que une as diferentes canções. Desde a sua estreia, o espetáculo tem percorrido teatros, auditórios, praças e coretos de todo o país.
Reunião de Condomínio
A colaboração com José Fialho Gouveia prosseguiu em Reunião de Condomínio, um disco conceptual construído como um prédio imaginário. Cada canção abre a porta de uma das habitações e apresenta os seus moradores, revelando diferentes histórias, conflitos, modos de vida e inquietações.
Do rés-do-chão às águas-furtadas, as personagens cruzam diariamente a mesma porta de entrada, embora cada uma habite uma realidade diferente. Através das suas histórias, o projeto aborda temas como a imigração, o assédio sexual, a parentalidade depois da separação, a vida dos professores deslocados, a solidão, a diversidade, a morte e o questionamento da fé.
O trabalho conta com as participações vocais de Catarina Munhá, Luciana Balby e Quim Barreiros, assim como com as ilustrações de Samuel Úria.
Na sua versão de palco, Reunião de Condomínio articula música, narração, dramaturgia, ilustração, projeção cénica e desenho de luz. Conduzido pela narração de José Fialho Gouveia, o público percorre simbolicamente os diferentes andares do edifício e conhece as histórias dos seus habitantes.
Anónimos de Abril
Em 2024, ano em que se assinalaram os cinquenta anos da Revolução dos Cravos, Rogério Charraz e José Fialho Gouveia estrearam Anónimos de Abril no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa.
O projeto nasceu da vontade de recuperar as histórias de mulheres e homens que participaram na resistência à ditadura e na conquista da liberdade, mas cujos nomes permaneceram afastados das narrativas mais conhecidas da História.
Cada protagonista é apresentado através de uma canção original, com música de Rogério Charraz e letras de José Fialho Gouveia. Em palco, Rogério Charraz junta a sua voz à de Joana Alegre. João Afonso participou na primeira fase do projeto e é também convidado numa das gravações.
O espetáculo de estreia foi registado e transmitido pela RTP, permitindo que estas histórias chegassem a um público mais alargado.
Em 2025, o projeto ganhou também uma dimensão editorial através da publicação de Anónimos de Abril — Volume I. Editado pela Zigurate, o livro-disco aprofunda as histórias retratadas nas canções e reúne textos de José Fialho Gouveia, Aurora Rodrigues e Miguel Carvalho, acompanhados por ilustrações de Marta Nunes.
Além do formato de concerto, Anónimos de Abril tem sido apresentado em feiras do livro, bibliotecas, espaços culturais e estabelecimentos de ensino. O projeto assume, assim, uma dimensão artística, histórica e educativa, contribuindo para a preservação e transmissão da memória coletiva.
Palavra Puxa Palavra
Entre os projetos mais recentes de Rogério Charraz encontra-se Palavra Puxa Palavra, espetáculo criado com Júlio Machado Vaz.
Neste encontro intimista, a música, a poesia, a conversa e a participação do público cruzam-se a partir de palavras sugeridas pelos espectadores. Uma palavra pode convocar uma canção, um poema, uma memória, uma história ou uma reflexão, fazendo com que cada apresentação siga um caminho diferente.
Em palco, a voz e a guitarra de Rogério Charraz dialogam com a palavra falada, a experiência e o pensamento de Júlio Machado Vaz. O espetáculo constrói-se em tempo real, em torno da escuta, da memória, das emoções e das questões que atravessam a condição humana.
Mais do que uma sucessão de canções e conversas, Palavra Puxa Palavra é um encontro entre duas formas de comunicar: a palavra que se diz e a palavra que se canta.
Rogério Charraz na atualidade
Ao longo de mais de três décadas de percurso artístico, Rogério Charraz tem construído uma obra profundamente ligada à palavra, à narrativa e à realidade portuguesa. Os seus discos não se limitam a reunir canções: criam universos, apresentam personagens e propõem diferentes formas de olhar para o país e para as pessoas que o habitam.
Entre a intimidade da voz e da guitarra e a dimensão multidisciplinar dos seus espetáculos conceptuais, mantém como elemento comum a vontade de comunicar diretamente com o público.
As suas canções abordam as relações humanas, a memória, o território, a justiça social, a liberdade e as transformações da sociedade contemporânea, encontrando no quotidiano o ponto de partida para histórias de alcance universal.
Cantautor e contador de histórias, Rogério Charraz encontra na música um espaço de encontro, reflexão e partilha.